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A urbe: ceboleiros, cagaréus e as periferias À primeira vista, a cidade oferece-se aos visitantes como um todo que fervilha, emergindo por aqui e por acolá áreas novas de crescimento. Mas, para os aveirenses mais enraizados, a tradição pesa no seu bairrismo, manifestando-se por diferenças comportamentais que radicam na vida de séculos. Para esses, Aveiro mantém na sua essência duas grandes áreas de desenvolvimento, cada uma delas melhor que a outra, conhecidas por designações populares com seu quê de galhardia mas, por vezes, usada depreciativamente: os ceboleiros e os cagaréus. Aqueles eram por excelência os habitantes do Canal Central para sul, considerada como a zona nobre, outrora muralhada e com seus ricos campos envolventes, terrenos de boa condição agrícola e onde se produziam os mimos da cozinha ou do celeiro. Seriam descendentes dos povoadores mais antigos e apresentavam, entre os seus pergaminhos, ter tido na sua área de acção a igreja paroquial (S. Miguel), a Câmara, os primeiros conventos de Aveiro, o Paço Ducal e o Paço Episcopal, a Catedral, a Misericórdia, etc. De uma maneira geral, assumem-se como gente mais fidalga, identificada com formas e estatuto das famílias da nobreza, mesmo que dessas tivessem sido apenas servidores. Os cagaréus, do Canal Central para norte, que entendem ter em si próprios a essência de ser aveirense, consideram-se mais simples de carácter, humildes nas suas origens que radicam na vida comercial e em actividades do mar e da Ria (do pescado, do sal e da construção naval), morando em casas de confeição singela - palheiros e "casas da Beira-Mar" (de área reduzida, geralmente com uma janela e uma porta ou duas janelas e porta ao meio), sem bons espaços de hortas tanto porque estas lhes não interessavam por serem dados a outras actividades como também porque, sendo terras baixas, sofriam as influências das marés com a água salgada. Dizem uns que cagaréu vem do facto de, andando permanentemente em trabalhos de água, teriam de "cagar à ré". Mas o que é certo é que, pelas terras do Vouga e do Águeda (Bairrada acima), cagaréu ou cacaréu, era o tipo murtoseiro (assim se designando de forma mais ampla todo o habitante ribeirinho que subia os rios à carga de produtos) e cacarejava (termo depreciativo), já que no seu carregado linguarejar, com tom e expressões bem diferenciadas, se tornava um tanto difícil o seu entendimento para os povos que visitava rios acima que, também, os entendiam como palradores ou fala-baratos. Esta dicotomia, que se manteve e acentuou quando as freguesias passaram a ser no século XIX apenas duas (Glória, a sul, e Vera Cruz, a norte), começou a ser quebrada com a abertura da Avenida Lourenço Peixinho, na segunda década do século XX, persistindo no entanto traços globais desses comportamentos que, com a vinda de dezenas de milhar de novos habitantes do interior, pouco sentido fazem hoje na vida da cidade. Sem essa força, mas com o mesmo sentido depreciativo e de emulação entre as freguesias antigas, os habitantes de Esgueira são popularmente conhecidos como "bicudos" (eventualmente pela importância a que se davam quando Esgueira foi cabeça de comarca), como os de Aradas eram genericamente designados por "paneleiros" (em razão das suas multisseculares oficinas de barro preto e vermelho que, apesar da variedade dos produtos, muitos viam como se tudo fossem panelas). Em todo o caso, com o alargamento das infra-estruturas urbanas, comunidades vizinhas que há séculos ou mesmo há décadas se encontravam diferenciadas no povoamento, estão hoje mais próximas do espaço da cidade, da mesma maneira que esta tende a alargar os seus tentáculos num espírito de municipalidade que gera reciprocidades, com novos núcleos urbanos de vanguarda e melhoria de condições de vida. Assim, as periferias estão cada vez menos periféricas, mas geram outras periferias. S. Bernardo e Aradas têm parte do seu território enquadrado na cidade, enquanto Esgueira já é olhada como freguesia de Aveiro. E, por curiosidade, registe-se que a cidade de Ílhavo, que distava cerca de 5 km da capital do Distrito, com a ocupação intensiva pela EN 109, está tão perto que quase toca a zona urbana aveirense... |
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